quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Charles Brenson Tripel - 12a Leva - Belgian Strong Ale

Homebrew Yeeeah!
Caro visitante! Após ver esta foto está se sentindo mergulhado em um caldeirão cheio de futura cerveja? É assim que um grão de malte sente-se. Estes grãos no caso, foram misturados a outro ingredientes. Ingredientes estes que fogem um pouco Reinheitsgebot. Afinal esta última leva não seguiu a tradicional escola alemã de se fazer cerveja, escola esta até agora seguida nas 11 levas pela Charles Brenson Bier. Desta vez resolvemos inovar, mudar um pouco o estilo de cerveja artesanal. Bem vindo aos monastérios Belgas!!!

Mas afinal, por que uma cerveja Belga? Muito se deve ao fato de na época em que eu estava procurando uma idéia para a proxima cerveja, experimentei este estilo e gostei muito. No mesmo período, no fórum online dos cervejeiros artesanais aqui de Curitiba estava sendo bombardeado com tópicos e receitas de cervejas Belgas, Tripéis, Dubeis entre outras. Curioso como sou, resolvi pesquisar um pouco e resolvi experimentar fazer este estilo. 

Monge belga rezando um pouco... Hehe
As cervejas belgas tem por característica a sua história. Antigamente, na era medieval, monges trapistas produziam as suas próprias cervejas em seus monastérios. Faziam a cerveja não somente com malte, mas com outros ingredientes como açúcar caramelizado, aveia, coentro, casca de laranja, entre outras especiarias. Não existia limitação em qual ingrediente se usar, por isso as cervejas belgas pode ser mais "criativa" que a alemã. O fermento também, na maioria do estilo Ale ou até Lambic (fermentação natural), garante aromas altamente estereficados, entre cravo, banana, e outras diversas variedades, dependendo da capacidade de olfato de seu nariz. Este estilo de cerveja também se caracteriza por um maior teor alcólico, entre 7 a 12% ABV. Alguns monastérios continuam a produzir cerveja até hoje, como por exemplo a Rochefort Brewery, com a sua Trappistes Rochefort n° 6, n° 8, n°10, ou a Westmalle Tripel / Dubel. 

File:Rochefort-beers.jpg
Trappistes Rochefort. Considerada por muitos a melhor cerveja no mercado. 
Westmalle Trappist
Mas por que Tripel? Ou Dubbel? Uma teoria é de que estes nomes se devem ao fato de que os monges, ao fazer a cerveja, brassavam o malte e o primeiro mosto extraído, muito concentrado em acúcares, era armazenado em barris e marcado com 3 cruzes. Esta seria a cerveja mais "especial", reservada para rituais religiosos e tinha um gradual alcoólico elevado. Após esta primeira leva, eles lavavam o bagaço com uma água de "sparge", e este segundo mosto eles marcavam com duas cruzes, sendo chamada então de Dubbel. Esta cerveja era bebida em festas e comemorações. Por fim o bagaço era mais uma vez lavado e era marcada com uma cruz apenas, cerveja esta bem fraca que era bebida no dia a dia dos monastérios. 

Caso você tenha interesse no assunto, a boa e velha Wikipedia tem um artigo interessante! Link abaixo. 


Bom, após uma breve navegada para ter uma idéia do que é uma cerveja belga, vamos de volta a Cervejaria Charles Brenson!

Basicamente, escolhi uma receita de uma Belgian Strong Ale, chamada também de Tripel. Bom, vamos então a receita!

Receita!

Para 50 litros:

Maltes / cereais não maltados / acúcares: 

- 14kg Pilsner 
- 1kg Munich II
- 500g Aveia em Flocos
- 300g Malte de Trigo
- 1kg Candi Sugar (10 SRM)
- 500g Mel 

Lúpulos: 

30g Magnum (70 min)
50g Nothern Brewer (70 min)
30g Saaz (30 min)
20g Saaz (15 min)

Especiarias:

15g Casca de Laranja desidratada (10 min)
15g Coentro (15 min)

Candi Sugar

Primeiramente foi necessário preparar o Candi Sugar. Nada mais é do que acúcar caramelizado, igual a sua mãe ou avó fazia para caramelizar uma forma com acúcar antes de fazer aquele pudim maravilhoso. Se você não sabe o que é pudim, entre aqui: http://www.pudim.com.br/. Haha zueira. Basicamente, você deve pegar açúcar cristal, na quantidade desejada, despejar em uma panela ou frigideira, jogar um pouco de água em cima (para 1 kg de açúcar, cerca de 300 ml de água), somente para dar uma umedecida no acúcar. Leve ao fogo alto e espere a água evaporar. Não mecha nunca! Quando estiver quase pronto o acúcar vai começar a dourar, e vai ficar um cheiro de caramelo na sua casa inteira. Demora cerca de 30 minutos o processo. Apague o fogo, despeje o conteúdo em uma forma de bolo e espere esfriar. Quando frio, quebre o açúcar e guarde para o dia que for fazer bera. O resultado fica mais ou menos assim:

Candi Sugar, aspecto final. 
Este ingrediente adiciona acúcares fermentáveis a sua cerveja aumentando o teor alcoólico. É uma técnica que foge aos quatro ingredientes da lei da pureza, mas lembre-se esta é uma cerveja que vem da tradição Belga, onde você é livre para inovar!

Brassagem

A semente do bem. Quaker!
Adicionamos o malte moído, junto com a aveia (Quaker mesmo) no caldeirão de brassagem e fizemos uma parada a 50°C para as proteínas (espuma) e depois foram cerca de 70 minutos a 64 - 65°C direto, em single mash. Desta forma foi possível extrair o máximo de açúcares possível dos grãos, garantindo um maior teor alcoólico e certo corpo na cerveja. Lembre-se que a 65°C temos ação tanto da alfa quanto da beta amilase, ou seja, a cerveja fica alcoólica e com certo corpo. 

Sorriso e Galdino. Fiéis escudeiros!
Terminada a brassagem, procedemos com a drenagem, sparge com água a 78°C (desta vez tinhamos um fogareiro acessório para aquecer água secundária!) e fervura. 

Água secundária no mais novo fogareiro.
Sparge com escumadeira. 

Drenagem do mosto! O bazooka entupiu novamente, moagem muito fina!

"Cama de grãos" - Grain Bed
Fervura

Fizemos fervura durante 70 minutos, e adicionamos os lúpulos e outros ingredientes, nos tempos ditos lá em cima na receita (em minutos). A novidade foi que usei o grain bag antigo com um "HOP bag", um chá de lúpulo! Isto diminuiu bastante a quantidade de Trub, sem perder a qualidade da lupulagem. 

Hop bag e outro doido por cerveja! Nunca Gava!
Sementes de Coentro moídas e adicionadas ao mosto.
Resfriamento, aeração, fermentação

Terminada a fervura, procedemos com o resfriamento do mosto com o Chiller de imersão, aeração do mosto, desta vez com um inalador nebulizador (destes de asma) acoplado a um caninho de silicone cheio de furos em seu final. A aeração funcionou, não precisei de oxigênio e as leveduras fermentaram fortes e contentes. O fermento utilizado foi o T-58 (http://www.fermentis.com/fo/pdf/HB/PT/Safbrew_T-58_HBPT.pdf), uma levedura selecionada pelo desenvolvimento de sabores um tanto esterificados, apimentados e especiarias, com sedimentação média e densidade específica final alta. Possui um bom rendimento em cervejas com teores de álcool acima de 8,5%. 

Inoculaçao do fermento hidratado. 
Aeração. Veja as bolhas de ar formadas!
Durante a fermentação observamos exatamente isto, obtivemos uma gravidade original de 1.082, e uma gravidade final de 1.020, o que deve garantir a cerveja um percentil alcoólico de 8,12% ABV.

Foram 5 dias de fermentação primária mais 8 dias de fermentação secundária para depois engarrafamento e maturação. Já se passaram 3 semanas de maturação e a cerveja está quase pronta. Infelizmente o T-58 mostrou-se um pouco preguiçoso para atuar no primming das garrafas, feito com 7g de açúcar por litro de cerveja, e o gás ainda não se formou direito nas garrafas. Como esfriou em Curitiba ultimamente, acredito ter sido este o motivo da não formação de gás. Estou no aguardo para abrir mais uma garrafinha e ver se carbonatou bem.

Engarrafei 30 litros e os outros 20 estão no Post mix. Este sim carbonatou. Fim de semana experimentamos uns copos e ficou show de bola, aromas bastante frutados, estereficados, com banana e cravo persistentes. Não sou ainda lá um expert em análise sensorial da cerveja, mas posso dizer que está boa. O T-58 mostrou-se efetivo!

Resultado da brincadeira: 30 litros em garrafas + 1 postmix cheio!
Aspecto final - Charles Brenson Tripel!

Bom, por enquanto é isso aí! 
Se tiverem alguma dúvida é só perguntar. 
Um grande abraço,

Brenson  - Charles Brenson Bier!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Curitiba Homebrewers Fest

Prosit! Charles Brenson Hefe Weiss!
Este último sábado, dia  25/09/2010, foi um grande dia para a Charles Brenson Bier! Participamos com 20 litros de nossa Hefe Weiss na excelente festa organizada pelos cervejeiros de Curitiba, o Curitiba Homebrewers Fest. Foram mais de 40 tipos de cerveja diferentes, muita gente bacana, música boa, comida boa e principalmente, Cerveja Excelente!

Chegamos lá umas 10h da matina, com nosso cantinho já reservado! Meus vizinhos foram os caras da Dirty Ol´ Bastard, e levaram uma American Pale Ale que estava divina! Fizeram um sucesso danado, enquanto eu tinha vendido uns 10 litros de cerva, eles liquidaram com dois kegs! Do outro lado estava o Jurbo, com sua Nega Ju, uma Dry Stout de excelentíssima qualidade!

Equipamento pronto para a Guerra!

Fiquei muito contente com a forte presença da minha família, dos meus amigos e convidados, no final vendi todos os 20 ingressos que me foram destinados.

Este evento foi muito divertido, e com certeza participarei de outros que aparecerem por aí. A cultura cervejeira em Curitiba agradece, pois o movimento está cada vez maior!

Segue algumas fotos!!!

Família Charles Brenson!

Mazi e Will!!! Ao fundo Charles trocando uma idéia com o Jurbo. 

Thias e Gabrizé!

Thias e Juvenal!

Trampando um pouquinho...

Hillbilly Rawhiiiiiiiide
Arrrr!!! Dirty Ol´ Bastards...
Gava (nunca!), Galdino (45021!), Brenson e Ícarus!
Infelizmente muitas pessoas que eu gostaria que estivessem nesta festa não puderam ir! Fica um convite já para a próxima, a todos os ausentes! 

Em breve post da cerva que esta quase saindo. Charles Brenson Trapista!

Um grande abraço a todos!

Bruno

Charles Brenson Bier

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Divulgação - Curitiba Homebrewers Fest!


Mais de 40 Homebrewers reunidos em uma Única festa!!!
Estarei lá com nossa Hefe-Weiss!

**Clique na imagem para ampliar**

Clique abaixo para visualisar o cardápio, ou melhor, cervejápio!



domingo, 29 de agosto de 2010

Aniversário Charles Brenson Bier - 11a Leva: Hefe Weiss !

Prévia da cor da Charles Brenson Hefe-Weiss
Olá caros leitores, amigos e amigas Charles Brenson! 

Hoje, 29/08/2010, estamos fazendo aniversário! Faz um ano que produzimos a nossa Ersten Ale. Desde então foram 11 levas de cerveja artesanal de ótima qualidade, cerveja tal que serviu nossa família e amigos em nossas reuniões, festas e churrascos! Obrigado a todos que tem nos acompanhado e apoiado, pois este hobbie é incrivel!

Fizemos para esta 11a leva uma cerveja de trigo, em especial uma Hefe-Weiss, que significa uma cerveja de trigo com fermento vivo não filtrado. A palavra Hefe na realidade significa "fermento branco", característico das cervejas de trigo alemãs como a Erdinger e a Paulaner. 

Gostaria de agradecer esta leva a três nobres cidadãos. Ao Sidnei, pai do meu amigo Lucas por ter financiado esta produção; Ao Waldir Sorriso, que me ajudou durante a produção inteira da leva, desde carregar galões de água até lavar panelas; Ao Samuel Bodebrown por ter nos disponibilizado água filtrada e o fermento de sua Bodebrown Heffe-Weiss, uma cerveja de altíssima qualidade!

Desta vez comprei o malte já moído, o que facilitou um bocado o trabalho! Está certo que perde um pouco a graça, pois moer o malte e sentir o seu aroma é algo maravilhoso! Mas foi uma mão na roda não precisar rodar milhares de vezes o moedor para triturar 12,5kg de malte!

Bom, vamos então a receita!!

Receita

Maltes:

- 7,5 kg de malte de Trigo
- 5 kg de malte Pilsner da Agromalte

Lúpulo:

- Hallertauer Mittelfruh - 100g (50g por 90´, 25g por 60´, 25g por 0´).

Fermento:

- Wyeast Propagator 3068 - Weihenstephan Weizen Wyeast (Direto do fermentador do Bodebrown!)

Weihenstephan Weizen Wyeast - 3068


Brassagem

Foi realizada uma escala de brassagem especial, para garantir uma boa espuma e extração de açúcares, pois utilizamos somente 40% de malte de cevada e 60% de malte de trigo. O malte de trigo por sua vez, ao ser cozido libera poucos acúcares fermentáveis, ou seja, precisamos de uma longa brassagem para extrair ao máximo os açucares do malte de cevada. 

Fizemos 40 minutos de parada de proteína, sendo 10´ a 37°C, 10´ a 42°C, 10´ a 50°C e 10´ a 53°C. Teoricamente... No final acabaram sendo cerca de 40 minutos em temperatura média de 50°! Isso pois tivemos alguns probleminhas com o fogareiro, como a quase explosão do mesmo. Hehe. 

Depois disso foram 90´ direto a 65°C para sacarificação e depois o mash out a 78°C. Segue algumas images da brassagem!

Adicionando os maltes, já moídos.
Realizando reparos de emergência no fogareiro!
Sorriso, mostrou-se um fiel escudeiro!


Recirculação e Sparge

Após terminada a brassagem, fizemos a recirculação do mosto e o sparge, e transferímos o conteúdo para a panela de fervura. Infelizmente desta vez o bazooka screen entupiu MUITO, demorou cerca de uma hora para fazermos a recirculação e o sparge. Não sei se foi o fato de ter sido malte de trigo, que possa ter entupido tanto, ou talvez o bazooka tenha uma área muito pequena para o volume que estou produzindo. Talvez eu adquira um fundo falso para auxiliar o bazooka no processo de filtragem da cerveja!

Mas no final das contas conseguimos uma boa clarificação e um ótimo aproveitamento da leva com este equipamento, creio que 75 a 80% de aproveitamento! 

Recirculação do mosto.
Retornando o mosto a panela com auxilio
 da escumadeira para não agitar o "grain bed".
Drenagem do mosto para a panela de fervura!
A panela com agua secundária estava prontinha ao lado.
Fervura

Fervemos o mosto durante 90 minutos. Foi realizada então a lupulagem conforme dito nos ingredientes, ou seja 50g de Hallertauer Mittelfruh durante 90´, 25g durante 60´ e 25´a 0´. Como este lúpulo é aromático e possui somente 4,5% de alfa ácidos, o IBU final será em torno de 11,4. Está dentro do estilo desta cerveja, que aceita IBU´s entre 8,0 e 15,0 segundo o Beersmith. 

Início da Fervura
Adição do lúpulo pelletizado
Uhhh! Quase um Boil Over! Veja que espuma de lúpulo!!!


Resfriamento, Aeração e Fermentação

Terminada a fervura, adicionamos o Chiller (5 minutos antes) e iniciamos o resfriamento com duas serpentinas novamente, uma em agua gelada e outro de cobre na panela de fervura. Como estamos usando o mesmo chiller que usávamos nas levas de 20 litros, o resfriamento está demorando um pouco, creio que precisaremos de um novo chiller, com mais área de troca de calor. 

Serpentina no gelo. 
Chiller de cobre. 
Transferindo o mosto para o galão fermentador!
Utilizamos o grain bag como filtro. 
O fermento foi adicionado em seguida ao galão, e em uma hora já demonstrava sinais de atividade. A fermentação inicial foi tão violenta que se eu não tivesse colocado um tubo "blow off", a sujeira teria sido muito maior, pois saiu fermento (krausen) pelo airlock! 

Veja abaixo o vídeo que fiz desta fermentação. Estou tímido com vídeos, mas logo logo farei um video de uma de nossas levas! 


A gravidade original (OG) desta leva foi de 1.060. A estimativa era de 1.050, acho que pelo fato de não ter completado com mais água durante a fervura. Não vejo pontos negativos nisto, a ABV ficará mais alta, e acho que isto é um ponto positivo =)

Gravidade Original: 1.060 no densímetro de massa. 
Bom, basicamente era isto que tinha para falar hoje, agora é só aguardar o fim da fermentação, engarrafar e embarrilar e prosit! Mais uma leva produzida!

Não poderia me esquecer de dizer uma coisa, enquanto a leva era produzída, a Charles Brenson Red Ale, agora com um mês de maturação foi degustada por nós! Hehe, essa cerveja ficou especial, ainda bem que tenho uns 15 litros no post mix! O problema é que sem a geladeira (está sendo usada para fermentar), tenho que guardar o post mix a temperatura ambiente. Creio que isto não estragará a cerveja, mas não temos ela geladinha pronta para tomar! Vou ter que investir de uma vez por todas em uma chopeira!

Red Ale! Eita trem bão sô!
Ah, em breve ocorrerá a 1a Curitiba Homebrewers Fest, caso sobre cerveja até lá creio que participarei deste evento vendendo um pouco da Charles Brenson Bier!

Um abraço a todos, ficarei devendo um post teórico para a outra semana! 

=)

Bruno

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Do Grão ao Copo - Ingredientes - Lúpulo

Humulus lupulus lupulus
Outra grande peça na fabricação de uma Charles Brenson Bier, e de qualquer outra cerveja, é o que chamamos de lúpulo. O lúpulo é uma éspecie de trepadeira originária da Europa e da Ásia, da espécie Humulus lupulus, da família Cannabaceae. Para aqueles que ainda não sabiam, estas flores verdes aí em cima são sim primas da maconha! Ele é utilizado amplamente na produção de cerveja, além de poder ser utilizado como condimento para cozinha e também é utilizado alternativamente como fármaco na medicina, por suas características relaxantes (um ótimo calmante!).

Um pouco de História...

Mas por que adicionar este ingrediente na nossa cerveja? Por que deixa-la com certo amargor e aroma?

Antigamente, a cerveja era preparada com diversos tipos de especiarias, para lhe dar sabores os mais variados possíveis, enriquecendo-a ao lhe adicionar aromas, dar-lhe mais cor, aumentar o seu teor alcoólico. Utilizavam coentro, mel, açúcar mascavo, anis, gengibre, rúcula, alecrim, cravo e raízes em geral. A partir do século VIII padronizou-se pela europa a formulação de uma mistura de ervas chamada gruit, que consistia de alecrim, artemísia, aquiléa, uze e gengibre para aromatizar a cerveja.

Relata a história que a primeira vez que o lúpulo foi utilizado na cerveja data do século IX. O primeiro registro escrito porém, data da Idade Média e se refere a monja alemã Hidelgarda von Bigen (1098-1179) que acidentalmente deixou cair folhas e flores desta trepadeira em uma tina de mostura de cerveja. Ao pensar que a produção estava perdida, perecebeu porém que o lúpulo tinha conferido uma conservação nunca antes vista naquela época.

Hidelgard Von Bingen (1098-1179)
Hidelgarda escreveu então em seu livro Physica sive Subtilitatum a seguinte frase: "Quando colocado na cerveja, o lúpulo impede a putrefação, e garante durabilidade longa". Por muitos ela é considerada Santa, apesar de nunca ter sido canonizada.

Devido a esta especial característica do lúpulo, de conservante natural da cerveja, ele foi cada vez mais sendo utilizado na produção pela Europa. Apesar da relutância contra o gosto amargo, após alguns anos os consumidores foram se acostumando ao amargor, além do efeito relaxante das suas substâncias. Por volta de 1400 o lúpulo já era bastante difundido por todo o velho continente e se manteve até os dias de hoje.

Produção 

O lúpulo é uma planta trepadeira nativa de regiões temperadas do norte, e crescem em latitudes entre 35° e 55°, tanto no hemisfério norte quanto no sul. Ela precisa de longos períodos de frio intenso e escuridão no inverno, onde passam por um processo de dormência, além de sol abundante durante o verão para o seu crescimento. Necessita então de dias e noites longas durante o ciclo anual.
File:Hopoutput.png
Produção de lúpulo no mundo, em regiões temperadas ao Norte.
A produção no hemisfério Sul é muito pouca, ocorrendo em parte na Austrália
O lúpulo tem uma trepadeira macho e outra fêmea. São as flores das fêmeas em forma de cones que são utilizados para a extração dos alfa-ácidos, unidades que garantem o amargor característico deste ingrediente. Conferem também aromas e sabores variados, dependendo do tipo de lúpulo utilizado. 

Diversas técnicas permitiram que se manipulasse as "raças" de lúpulo através de cruzamentos entre diferentes variedades e seleção dos resultados. Um lúpulo selvagem nativo da europa por exemplo é diferente de um encontrado nos EUA que por sua vez é diferente de um asiático. Eles são porém ferteis entre si, podendo gerar combinações entre seus estilos. Com modernas técnicas de bioengenharia pode-se padronizar os diferentes tipos de lúpulo em relação ao seu aroma e amargor. 

Plantação de lúpulo na região de Hallertau, na Alemanha. 
Por ser uma trepadeira, é necessária para produção em grande escala grandes armações de até cinco metros de altura ou mais, onde fios são erguidos para que a trepadeira se oriente e desenvolva para cima. Após adulta, e essas plantinhas crescem rápido, elas entram na fase de reprodução e as flores começam a brotar. Caso haja a presença da planta macho, ocorre a fertilização e formação de sementes e o ciclo se reinicia. 
Hop-Farm.jpg
Fazenda de lúpulo
Armações para crescimento do lúpulo 
As flores são separadas dos caules e folhas e então secas em estufas e processadas para as cervejarias ou em nosso caso, cervejeiros artesanais. Podem ser comercializadas em forma de flor ou em pellets, que nada mais é que a flor compactada e transformada em pequenos cilindros pela facilidade de transporte. 

Colheita
Lúpulo pelletizado
Caso alguém se interesse mais sobre a produção, colheita e processamento do lúpulo, assista este vídeo, interessantíssimo, por sinal! Este é um vídeo de um conjunto de 24 famílias produtoras de lúpulo nos Estados Unidos: http://www.oregonhops.org/


Infelizmente a produção de lúpulo no Brasil não é viável, pois estamos em uma latitude muito alta e as plantas não chegam a florescer, segundo relatos de muitos cervejeiros artesanais que aqui tentaram as suas produções de quintal (eu inclusive queria tentar aqui em Curitiba!) relataram que não conseguiam flores ou quando conseguiam eram muito poucas. 

Amargor e aroma

O lúpulo possui dois tipos de resinas principais, os alfa e beta ácidos. Os alfa ácidos (AA) possuem um efeito antibiótico e bacteriostático contra bactérias gram positivas, e favorecem o crescimento da levedura durante a fermentação do mosto. Além disso, eles garantem a cerveja o amargor característico que todos conhecemos. Quanto maior a concentração de AA no lúpulo, mais amarga ficará a cerveja. Lúpulos com grandes quantidades de AA são chamados de lupulo de amargor (bittering hops).

Estas resinas precisam para ser "isomerizadas" um longo período de fervura durante a produção da cerveja. Usualmente para extrair o todo o amargor de um lúpulo se necessita entre 60 a 90 minutos de fervura intensa. Ocorre também a liberação de aromáticos, que devem evaporar durante esta fervura pois deixariam um gosto ruim na cerveja. 

Os Béta Acidos (BA) por sua vez não isomerizam durante a fervura do mosto. Eles contribuem para o aroma e lúpulos com grande quantidade de BA são chamados de aromáticos. Estes lúpulos aromáticos são adicionados no final da fervura, e ficam menos de 10 minutos em contato com o mosto fervente. Desta forma, os AA que ali estão presentes não isomerizam por completo auxiliando no aroma final da cerveja. 

Adição de lúpulo à fervura
Simplificando, ao fazer uma cerveja você deve escolher seus lúpulos de amargor, que ferverão por cerca de uma hora, e de aroma, que serão adicionados no final do processo. Pode-se ainda fazer o "dry-hopping", que é a adição de lúpulo diretamente na cerveja em fermentação, para garantir um aroma ainda mais característico. 

International Bitterness Unit

Esta sigla aí em cima significa unidade internacional de amargor, em ingrêis. Foi criada para padronização do amargor presente nas cervejas mundo afora. Assim como existe uma escala para cores da cerveja, comentado no último post sobre maltes, aqui existe uma escala para o quão amargo é esta bera. 

1 IBU significa 1 miligrama de alfa acidos isomerizados em 1 litro de mosto pronto. Quanto maior o IBU, mais amarga é a cerveja, e vice versa. Este fator pode ser na verdade mascarado, pois uma cerveja mais maltada com 50 IBU´s será percebida como menos amarga que uma Pale Ale com os mesmos 50 IBU´s, pois o gosto maltado balanceia o amargor. 

O IBU é calculado a partir da quantidade de lúpulo adicionado, da quantidade de álfa ácidos deste lúpulo e de quanto tempo ele ficar fervendo.

Quanto maior a quantidade, o índice de AA e o tempo de fervura, maior será o IBU. Uma cerveja destas industriais brasileiras, possui um índice de IBU que chega no máximo a 5. Uma Irish Red Ale, a minha última produção, teve 25 IBU´s. Uma India Pale Ale, um estilo de cerveja muito lupulada possui entre 40 a 70 IBU´s. Veja a tabela abaixo para ver a quantidade de IBU em cada estilo de cerveja!


Por fim, gostaria apenas de falar da imensidão de quantidades de lúpulo que encontramos hoje no mercado. O link abaixo mostra as descrições de vários tipos de lúpulo, apenas para você ter idéia de quantos tipos são. O que significa isto? Milhares de possibilidades de receitas, pois mudando um lúpulo de aroma, você pode ter duas cervejas diferentes!


É isso aí, caso tenha faltado algo durante a semana eu completo o post!

Espero que tenham gostado deste tópico! Em breve falarei um pouco sobre a água e os fermentos!

Um abraço!

Bruno